quarta-feira, 10 de maio de 2017

ANIVERSÁRIO


Há  sete anos  nascia este blog com o intuito 
de  repartir com os amigos ,   poesia e prosa que
eu guardava nos cadernos da vida .
Com o tempo ,  acrescentei música e fui  partilhando 
 textos  de autores que acabara de conhecer .
Fiquei perplexa quando constatei a presença 
de vários artistas neste espaço .
Poetas , escritores , professores , fotógrafos , pintores ,
entre outros , estavam me acompanhando .
Mergulhei em cada publicação de vocês 
e cresci  bastante .
Estamos  juntos durante estes anos ,
nos visitando  e nos  acarinhando ,
seja por nosso  trabalho , nascimento  e  casamento ,
 de filhos e netos ,viagens , livros publicados , 
  e tudo que ocorre a nossa volta .
Num mundo tão violento e hostil , 
saber que  pertencemos a  
estas ilhas de doçura é uma benção .
Agradeço muito  a vocês .
Partilho , uma vez mais , o poema
GUARDAR , de António Cícero que 
sintetiza , a meu  sentir , o que fazemos .
Beijos  

" Guardar uma coisa não é escondê-la 
ou trancá-la .
Em cofre não se guarda coisa alguma .
Em cofre perde-se a coisa à vista .
Guardar uma coisa é olhá-la , fitá-la ,
mirá-la por admirá-la , isto é ,
iluminá-la  ou ser por ela iluminado .
Guardar uma coisa é vigiá-la , isto é ,
fazer vigília  por ela , isto  é ,
velar por ela , isto é , estar acordado 
por ela , isto é , estar por ela ou ser por ela .
Por isso se escreve , por isso  se diz ,
por isso se publica , por isso se declara e
declama um poema :
Para guardá-lo :
Para que ele , por sua vez ,
guarde o que guarda :
Guarde o que quer guardar um poema :
Por isso  o lance do poema :
Por guardar-se o que se quer guardar . "

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quinta-feira, 27 de abril de 2017

ANSEIOS

Jean Paul Nacivet

" Só quero lembrar
se o tempo for todo meu .

Só anseio lembrança
se não houver passado .

Bruma e espuma ,
apagam o tempo que não amei .

E eu amei 
para ser tudo , todos ,  sempre .

Para te visitar
esquecerei a terra
e apagarei as estrelas .

E irei pelos teus olhos,
até o mundo voltar a ter princípio .

Sou eu , dirás ,
E o tempo será lembrado ."

Mia Couto 
in , Tradutor de Chuvas "

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.






sábado, 8 de abril de 2017

A PÁSCOA VEM CHEGANDO ...

Giotto 

( ... )


 " Quem  deseja Feliz Páscoa , deseja ao outro 
uma ressurreição .
Deseja que o que morreu  de cansaço ou de tédio 
ressuscite , que os desiludidos  recuperem o ânimo ,
que os desesperados esperem uma vez mais
 pela última vez   , que quem calou assovie , 
que os amargos tenham um súbito  ímpeto
de doçura , que os suicidas suspendam os gestos 
e os assassinos  petrificados se arrependam .
Feliz Páscoa , responde o outro ,
o corpo invisível , o corpo dos desejos subindo
aos céus , anunciando que um outro mundo
existe porque é nele que moramos em sonhos ,
sem cruz , sem calvário, sem sangue , 
onde uns amam os outros , 
um pedaço de pão  e um copo de vinho ,
amigos em volta , a fé no futuro ,
um projeto de vida  e a certeza-
- ah , que certeza -
de que um pai onipotente zela por nós 
e jamais nos abandonará . "

Rosiska Darcy de Oliveira  
na crônica ,"  O condenado à vida "

 No próximo domingo ,
16 de abril , comemoraremos
a Páscoa .
Desde já ,  desejo a todos
vocês ,  queridos amigos , 
que ela seja alegre e abençoada .
FELIZ PÁSCOA   !


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segunda-feira, 20 de março de 2017

CANÇÃO DE OUTONO

Leonid  Afremov 

 Hoje ,  20 de março , às 07:20 horas ,
 aqui no no hemisfério sul , começou o outono .
Partilho com vocês poema de Cecília Meireles que 
nos fala de folhas  e  de outono , mas também ,
de amor , tristeza e saudade .

" Perdoa-me , folha seca ,
não  posso cuidar de ti .
Vim para  amar neste mundo ,
e até do amor me perdi .
De que serviu tecer flores
pelas areais do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração ?

E não pude levantá-la ! 
Choro pelo que não fiz .
E pela minha fraqueza 
é que sou triste e infeliz .
Perdoa-me , folha seca ! 
Meus olhos sem força estão 
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão ...

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim .
Deixo-te  minha saudade 
- a melhor parte de mim .
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão .
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão ..."

Cecília Meireles 

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domingo, 12 de março de 2017

CLARICE LISPECTOR , SEMPRE

Anna  &  Elena  Balbusso 

Leio e releio Clarice .
Assim , partilho com vocês , uma vez mais ,
a crônica  "POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS" ,
contida  no livro  ,
 " A DESCOBERTA DO MUNDO"
que publiquei em outubro de 2014 .

" Havia a levíssima embriaguez  de andarem juntos ,
a alegria  como quando se sente  a garganta  um
pouco seca  e se vê que , por admiração , 
se estava de boca  entreaberta :
eles respiravam de antemão  o ar que estava
à frente  , e ter esta sede  era a própria água deles .
Andavam por ruas  e ruas falando e rindo, 
falavam e riam  para dar matéria e  peso à levíssima
embriaguez  que era a alegria da sede deles .
Por causa  de carros e pessoas , às vezes eles
se tocavam , e ao toque - a sede é a graça ,
mas as águas  são uma beleza de escuras - e ao
toque  brilhava o brilho da água deles , 
a boca ficando um pouco mais seca de admiração .
Como eles admiravam estarem juntos !
Até que tudo se transformou  em não .
Tudo se transformou em não quando eles quiseram
a mesma alegria deles .
Então a grande dança dos erros .
O cerimonial das palavras desconcertadas .
Ele procurava e não via, ela não via 
que ele não vira , ela que ,
estava ali , no entanto .
No entanto ele que estava ali .
Tudo errou , e havia a grande poeira das ruas ,
e quanto mais erravam , mais com aspereza queriam ,
sem um sorriso .
Tudo só porque  tinham prestado atenção ,
só porque  não  estavam bastante distraídos .
Só porque , de súbito exigentes e duros  ,
quiseram ter o que já tinham .
Tudo porque quiseram dar um nome ;
porque quiseram ser , eles que já eram .
Foram então aprender que , 
não se estando distraído ,
o telefone não toca ,
e é preciso sair de casa 
para que a carta chegue ,
e quando o telefone toca ,
o deserto da espera já cortou os fios .
Tudo , tudo por não estarem mais distraídos ."

Clarice Lispector 

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quarta-feira, 1 de março de 2017

TER MÃE

Sandra Bierman

( ...)

"  Ter mãe é a primeira chance que a vida nos oferece .
Nascer é uma dor surda , um espanto tamanho -
e quanto tempo dura um espanto ,
 perguntou um poeta-
uma sufocação do mundo que nos entra pelos pulmões ,
rarefeito , um medo tão grande , uma solidão infinita 
face a esta luz súbita  que inaugura o primeiro dia .
Nascer é tão difícil que , não fora o calor de um corpo
que não será nunca esquecido , morreríamos ali mesmo ,
desistiríamos  ao primeiro grito que é sempre 
tão desesperado , um pedido de socorro  que vara
a opacidade das coisas .
Nascer é um susto terrível . Maior , só viver .
O risco de pôr-se de pé , de atravessar estas imensas
distâncias  que levam de um lado a outro da sala ,
pisando os nós da madeira  como um roteiro incerto ,
 buscando o frágil  equilíbrio  de músculos 
e ossos imaturos , esse percurso impossível , 
mais arriscado que um salto mortal sem rede ,
termina em braços abertos .
Esse é o final feliz , que abre as portas 
de tantos  possíveis .
Se aceitamos correr tantos riscos na tentativa
de aprender caminhos  é porque , 
em algum lugar da memória mais longínqua ,
esperamos ainda que o mundo nos acolha 
de  braços abertos ."

Rosiska Darcy de Oliveira 
in , " Pássaro Louco " ,
crônica " Ter Mãe "

A página de hoje é para minha mãe que
completa 92 anos ,
 sempre ao nosso lado  .
Peço a Deus que a conserve entre nós 
mais tempo com saúde e alegria .
Beijos com muito  amor de
toda a família .

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domingo, 19 de fevereiro de 2017

FAZES-ME FALTA

Erica Hopper 

( ...)

" Eu só queria  ver de que material era feito 
o teu amor por mim .
 Precisava de escangalhar o teu coração 
para o fazer  encaixar no meu .
E agora tenho que o desencaixar 
outra vez  para sair deste limbo .
Mas não sei como .
Sem o teu coração não consigo amar -
não me abandones outra vez .
Logo eu , que amava o mundo inteiro,
não é ?
 Amar  em abstrato é muito mais
ágil  do que amar em concreto ."

Inês Pedrosa 
in , " Fazes-me falta "

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